Entre os meses de março e julho  de 2026 realizamos o sexto ciclo  de investigação proposto pelo grupo FIGAS (Feminismos, Imagens,  Gêneros, Artes e Sexualidades).  Ao longo desse período nos dedicamos a explorar a feminilidade  tateando suas cercas normativas  até suas (im)possíveis subversões. Investigamos a feminilidade como  topia fundamental - heterotopia,  utopia, topus: uma superfície, um espaço, um lugar, um lugar, aqui,  de trincheira aberta.  Trilhamos uma estrada tripartida entre leitura, escrita e prática  de ateliê: interruqción, cita-acción  e experimentación. Fizemos colidir e dispersar conceitos e imagens advindos dos feminismos,  do pensamento cuir, das teorias da  imagem e da história da arte em  uma máquina cuja força é ao mesmo tempo centrípeta e centrífuga.  Esses íons, grudados como sufixo  nas palavras-guia [interruqc-ión,  cita-acc-ión, experimentac-ión]

O último dos exercícios de  experimentación, sob a égide da  Revolta, desagua nesta publicação.  Apresentamos aqui nosso processo experimental de escrita coletiva e investigação artístico-acadêmica, atravessado pelas práticas  oraculares, leitura de bibliografia  crítica cuir-feminista e nossa metodologia de pesquisa contaminada. Dessa forma consolidamos as  atividades do grupo de pesquisa  no ano de 2025: convidando as  participantes a experimentar modos outros de produção de conhecimento, partindo de seus próprios  contextos e práticas investigativas.

Cada autora teve como desafio  escrever um artigo com o título  “Heterotopias da feminilidade:  [subtítulo autoral]”, organizando sua escrita em três partes Introdução, Desenvolvimento e  Conclusão — com estrutura formal segundo as normas ABNT.  Cada uma das três seções do artigo  deveria estabelecer conexões entre  o material oracular produzido coletivamente, a bibliografia crítica do  ciclo e as experiências artísticas,  acadêmicas e afetivas das autoras. A partir disso, desenvolvemos  esta publicação combinatória que  reforça o caráter indisciplinado da  escrita e a pluralidade epistemológica do projeto.

A publicação é composta por  216 artigos que derivam da combinação matemática exaustiva de  cada Introdução, Desenvolvimento  e Conclusão dos seis artigos originais produzidos pelas integrantes  do grupo. A análise combinatória  evidência o vazio dos mecanismos  de validação da academia, que podem ser reduzidos a conluios estatísticos para manter certa relação de poder. Números no lattes, citação dos clássicos, filiação teórica.  E se lançássemos sem números de páginas uma publicação-oráculo-de-arte como uma heterotopia?

Os 6 artigos desse livro se desdobram em 216 se explorarmos  todas as possibilidades de combinação entre suas Introduções, Desenvolvimentos e Conclusões.

E se lançássemos em 2025 páginas uma publicação-calhamaço-de-arte em três volumes como uma heterotopia, e expusessemos como obra de arte?

A publicação-livro-obra integrou a exposição CONVITE AO ATAQUE, realizada entre 10 a 18 de outubro de 2025 na Galeria Alcindo Moreira Filho do Instituto de Artes da UNESP como parte do II Encontro entre Feminismos, Imagens, Gêneros, Artes e Sexualidades: Heterotopias da Feminilidade. Ao final do evento, a obra foi lançada em um evento performativo, celebrando a multiplicidade de formas que um “artigo científico” pode assumir.

Clique aqui para visualizar a publicação no Repositório Institucional da UNESP - versão Calhamaço

E se transformassemos o livro em jogo da memória, dominó,  quebra-cabeças, tarot, runas, búzios, un coup de dés que nunca  abolirá o acaso?

As regras são as que seguem [mesmo que possam ser quebradas ou, ainda, que outras possam ser  inventadas]. Os artigos originais vão encapsulados por uma capa maior, dentro dela existem três cadernos: um para Introdução, um para  o Desenvolvimento e um para a Conclusão. Pegue a introdução de um, a conclusão do outro, enfie um  desenvolvimento bem no meio. Termine com as notas de fim e a  bibliografia comum. Pronto! Você  acaba de [re]produzir um artigo  hiperprodutivo. Repita essa operação à exaustão, brinque com a exaustão até que nasça o pássaro  onírico do tédio. Resista à sociedade do cansaço. Misture os títulos  ignorando as preposições e os artigos, invente o seu. Faça uma pergunta que te encha de vergonha,  monte um artigo, escreva sua resposta. Revolte-se contra o medo, o que há de desejo nisso tudo? A vergonha pode ser uma operação  ética de responsabilidade? Use seu oráculo para escrever um romance, um poema, uma operação  ensaio. Corte seu corpo com as finas beiradas do papel, interrompa o texto com o seu sangue, sua  saliva, suas lágrimas, seu suor,  seu gozo. Sonhe uma academia brincalhona que não se mede por  estatísticas hiper-especializadas  e porcentagens Kinsey, mas, sim,  por sua potência de transformação  (de ser transformada), transfiguração (transfigurada), interferência (interferida), ruído (piquetada),  picoteada, contaminação (contaminada) na sociedade. Encontre com a mão dupla, a contramão, as muitas mãos.

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