Ao longo do segundo semestre de 2023, o Grupo de Pesquisa FIGAS (Feminismos, Imagens, Gêneros, Artes e Sexualidades) montou coletivamente a exposição (A)tração Marginal. A partir do encontro entre leituras, conversas, feituras e escrituras – nublando definições limítrofes entre teoria e prática – as 16 artistas integrantes da mostra se dedicaram à tarefa de (a)bordar trabalhos, discussões, palavras e imagens produzindo, no entre-mundo das significações, contaminações ruidosas.
Entre diálogos, símbolos, signos e muita pesquisa-ação, um vocabulário coletivo irrompe em elos, grelos e (des)encaixes: cicatrizes, tramas, tecidos, evas, vassouras, dildos, fronteiras, leite, ritual, macumba e poção. Sabotando imagens que se dispõem de estereótipos para reinscrever perpetuamente as assimetrias moderno-coloniais da racialização, da generificação, da sexualização e da pauperização, buscamos cruzar caminhos da diferença sem a hierarquização inerente às classificações, territórios de diferenças inclassificáveis, singulares.
Esta exposição convida para uma caminhada pela entrada e saída das agulhas que cicatrizam camadas, pelo movimento dos dedos que projetam desejos, caminho das vozes que confessam segredos, caminho de evas que aves voam. Voal, vinil, vídeo, vidro. As superfícies se apresentam como rachaduras na suposta harmonia curatorial, as obras/pesquisas/subjetividades se contaminam mutuamente.
É na quebra da consonância, no desconforto do dissenso, na truculência do confronto que depositamos nossas apostas. Sem qualquer pretensão sintética ou pacificadora, apresentamos um caldeirão de obras, como bombas semânticas, prontas para explodirem os significados cisheterossexuais do patriarcado racista euro-estadunidense e dispersarem sentidos que se façam sentir no corpo-pele.
Se há esperança, é no fim.
Em rede - como as que formam os arranjos imprevisíveis que encantam os seres, em maior ou menor escala - a experimentação de formas de estar e não-estar nas quais estamos imersas/es/os, instala espaços de aceitação e de negação traduzidos em conceitos, palavras que dão e tiram visibilidade; é aí que acenamos para múltiplas possibilidades de existência horizontal e comunitária - em denúncias de bem-estar e mal-estar, denúncia da organização binária. O fim do mundo moderno-colonial neoliberal unívoco, bipartido, no princípio quântico de um emaranhado incontável promíscuo. Partis pris da pluralidade, acolhemos as possibilidades, sempre entendendo que plural não quer dizer “qualquer coisa”. A exposição (A)tração Marginal, celebra o ainda incipiente movimentar e provocar movimento com os corpos, os atritos com a vida e com a morte, com o solo e seus seres de agora-depois-antes, correndo atrás de uma ética de coexistência e co-criação.
Durante este semestre cultivamos criatividades diversas, semeando um solo possível para fugas e desvios diante das limitações institucionalizadas, aquelas que ameaçam solidificar em monoculturas. nossos lugares de trânsito. Assim, talhamos no centro da rotina um ritual maleável da presença. Por estarmos em uma rede, fomos abertas/es/os pela transformação, pela indisciplina e pela imprevisibilidade. Se a organização categórica entre “masculino” e “feminino” invade os corpos que gritam, os limites da representação e o flerte caótico nos dão perspectivas disruptivas de que o melhor que pode surgir é aquilo que escapa do plano. E isso é meta. Multidimensional no sentido pleno, que o viver abra caminhos e seja contexto para que surjam outras formas de saber: indeterminadas, insubmissas e múltiplas.
Texto escrito coletivamente pelas integrantes do Grupo de Pesquisa FIGAS
Artistas expositoras
Anne Courtois
Anita Lisboa
Dos Santos
Eduardo Padilha
Gi Real
Greta Coutinho
Bel Mucci
Larissa Rachel Gomes Silva
Laura Nakel
Lídia Ganhito
Mariana Pougy
Marie Auip
Pacor
Patricie Gerber
Sandra Vilchez
Telma Luiza de Azevedo
Ativações
Durante o período da exposição, o coletivo propõe ativações em diferentes datas e horários, com performances, rodas de conversas e um convite para visitação mediada.
02/12 (sábado)
Corpos Estranhos
12h30 - 14h00 | 1º andar Galeria do IA-UNESP (mural em frente aos elevadores)
Ação coletiva performativa por integrantes do FIGAS, onde as artistas-pesquisadoras criam um mural de lambe-línguas com palavras derivadas dos exercícios de escrita coletiva realizados durante os encontros teóricos do semestre, ativando jogos de sobreposições e criando novas palavras intencionais e aleatórias.
AVE EVA
16h | Local: Galeria do IA-UNESP
Performance por Anne Courtois
Vulva
16h30 | Local: Galeria do IA-UNESP
Performance acrobática no tecido por Bel Mucci.